28 de jan de 2014

Desigualdade de gênero: placas de trânsito que falam

Uma explicação mínima sobre gênero e sexo antes de falar sobre placas de trânsito.

Gênero é o resultado de regras socio-culturais que são (re)criadas e definidas a partir da percepção do que é feminino e masculino. Ou seja, o que cabe às mulheres e aos homens de forma diferenciada.
Gênero é diferente de sexo.
Sexo é definido pelo cromossoma XX (mulher) e XY (homem).

A desigualdade de gênero está nas relações sociais entre homens e mulheres, pode ser observado por exemplo na diferença salarial entre homens e mulheres, na divisão desigual de tarefas domésticas, no esporte, etc.

Placas de trânsito, o assunto em questão:

Desde 2010 venho coletando fotos de placas de trânsito aqui na Alemanha.
Porque uma simples imagem de desvio de caminho, ou de passagem de pedestre representa muito mais que alguém deve ficar atento no trânsito, representa também o contexto da sociedade em que vivo.

 Durante todo esse tempo que fui fazendo essas fotos, fiz uma reflexão sobre as imagens e de como elas estão embutidas de machismo, reforçando o papel da mulher exclusivamente como mãe, dona de casa, cuidadora das crianças.
Essa reflexão, sem nenhum aprofundamento técnico, ficou comigo mesma e somente algumas vezes foi confidenciada para outras pessoas.
Agora vou compartilhar aqui.
Em algumas imagens, aparece a figura de um homem com um menino, aparentemente estão na rua, brincando de bola, claro porque quem brinca de bola é menino e não menina.
Menina brinca de boneca, de panelinha e dentro de casa.

Mas eu poderia pensar que essa figura representa o momento em o homem está cuidando da criança. Mas então ele só cuida na hora da brincadeira?
Por que não colocar uma representação de uma garota jogando bola também? Meninas jogam um bolão também.

 A placa que eu mais vejo por aqui é a representada pelo desenho uma mulher com uma criança. A placa indica de quem é a preferência. Geralmente esta placa está perto de uma escola, então pra  mim, essa imagem diz de quem é a responsabilidade para com a criança.

Ano passado quando estive em Genebra, vi a placa abaixo e achei excelente, afinal o pai também tem responsabilidade para com a criança, e isso perpassa pelas indas e vindas da escola, além de outros cuidados.

É assim que eu vejo essas imagens.
Com exceção da última foto (do homem com uma criança), as demais foram feitas em diferentes cidades aqui na Alemanha, em Heidelberg, Roschbach, Frankfurt e Essligen.
Já perguntei para diferentes pessoas o que elas acham das imagens, mas geralmente elas acham normal e não vêem o que eu vejo.
No meu entender elas reforçam as desigualdades de gênero.
Gostaria de saber sua opinião, se puder e quiser comentar alguma coisa vai ser muito legal.

Post publicado em 09/09/2012

8 Comente aqui:

Glenda Dimuro disse...

Muito legal vc expor isso aqui. Pouca gente é tão sensivel ao ponto de enxergar o machismo da nossa sociedade nos detalhes. Adorei a placa do homem com a menina. Outra coisa que comecei a reparar é nos fraudários públicos. Normalmente eles estão dentro do banheiro feminino. Pai não tem obrigação de trocar fralda não?
Venho sempre no blog e raramente comento. Se cuide, viu? Um super beijo

Roseane Viana disse...

Eu sempre vejo fraldário em banheiro feminino, mas eu também nunca entrei em banheiro masculino pra ver se tem. Agora fiquei curiosa.

Eu, sem clone disse...

Muito boa a analise, Ro.Acredito que as pessoas com as quais vc conversou sobre o assunto ja estão acostumadas e não percebem o machismo, se é que existe machismo. Qto aos fraldarios acho que é so nos banheiros femininos, qdo não é colocado isolado. Mas, uma coisa é certa: qdo as mães levam os filhos garotos para fazer pipi é sempre no banheiro feminino. Acredito que se for o pai que levar certamente sera no banheiro masculino.Ja p as meninas é meio complicado p o pai entrar nos banheiros femininos, não achas? bjs

Camille disse...

Que espetaculo de pesquisa. Vou compartilhar na minha pagina, no FB e tb na minha faculade de saude publica. Posso?
Bjao querida Roseane, voce é uma genia!!!!
Boa semana!!!!
Cam

Camille disse...

Amiga nao estou conseguindo enviar um email para mim mesma. As letrar que digito sempre dao como erradas.
Voce pode me enviar? lindodia8@yahoo.com.br
Aqui nao tem aquele icone que compatilha direto com FB, tem?
Bjao

Elaine Pasquim disse...

Rô, essa é a diferença e que realmente possibilita mudanças, quando se é capaz de enxergar o que em geral parece normal e questionar o "comum". Muito bom! Bjs

Anônimo disse...

Oi, Ro

Boa observação :-) Só lembrando que aqui, na Alemanha, muitas/ a maioria das mulheres abandonam a vida profissional para serem exclusivamente maes.
Já vi alguns fraldarios comunitários, quero dizer independentes de pertencer ao banheiro masculino ou feminino.
Aqui, na cidade, tem alguns lugares públicos (tipo escolas), em que os banheiros sao unissex. Entao, os fraldarios, claro, perdem esta questao de genero.
Eu também nunca entrei em banheiro masculino :-)
O que observo na Universidade, nos onibus e trens, é que tem muito homem sozinho, cuidando de bebes ou criancas pequenas.Agora, nao "vejo" mais, acostumei ;)
A sociedade vai mudando lentamente e positivamente, espero :)
Beijos!
Claudia

Flavio Valente disse...

Roseane, excelente análise. as mudanças não acontecem "naturalmente". elas acontecem porque pessoas e grupos que são discriminados lutam por mudanças e, aos poucos elas vão acontecendo, mas sempre no ritmo da luta. Os avanços também de pessoas como você que mantem os olhos abertos, com o objetivo de desvelar o que parece "natural", mas não é, mas sim resultado de desigualdades institucionalizadas. Realmente muito bom este post, merece maior divulgação. Posso divulgar?
Flavio